Eu Ainda Sinto Falta Dela

sábado, 19 de julho de 2014

   Eu tinha oito anos e me apresentaria no coral da escola no dia seguinte. Eu não poderia estar mais animada. Pedi para ela passar a blusa que eu usaria, mas distraída ela criou um enorme buraco na blusa. Ela ria tanto, mal conseguia respirar, nem ao menos explicar o que tinha acontecido. Ela me ensinou a passar minhas roupas sem queima-las.
   Ela preparava miojo com bacon no almoço por estar com preguiça de cozinhar mas no jantar ela fazia questão de fazer strogonoff, meu preferido, que mais tarde ela me ensinou a preparar. 
  Ela, que me levava onde fosse preciso e fazia todas minhas vontades. Ela, que jogava fora a beterraba antes que meu pai visse que eu não tinha comido nenhuma. Ela, que fumava o dia inteiro e tinha vergonha de ser vista comendo. Ela, que basicamente me criou.
   Depois de tantos anos, ela não ia mais todos os dias na minha casa. Ela não tinha mais forças para preparar meu strogonoff, nem para subir as escadas da minha casa. Ela emagreceu absurdamente e resolveu parar de fumar. Seu cabelo foi caindo e sempre que eu a encontrava ela estava passando mal.
   De volta de uma viagem com minha família recebemos um telefonema, e mesmo sem minha mãe dizer eu já sabia, ela nunca mais voltaria na minha casa, ela nunca mais prepararia strogonoff pra mim, eu nunca mais a veria.
   Eu sei, nunca vou esquece-la, e mesmo depois de tantos anos eu ainda choro ao pensar que ela não me ouvirá falar sobre meus amores e meus novos amigos, que ela não me verá formada, nem casada. Ainda choro ao pensar que ela nunca conhecerá meus filhos. E eu lamento não tê-la por perto para cantarolar meu nome ou para se sentir orgulhosa de mim pelas minhas conquistas.

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